Por hoje só agradecer

“Nós fazemos parte do universo, pertencemos ao universo e nele estamos em casa; e a percepção desse pertence, desse fazer parte, pode dar um profundo sentido a nossa vida.” Fritjof Capra

Estamos nos dias derradeiros de 2017, quase no fim dos 365 dias. O tempo passa, ou melhor dizendo nós passamos pelo tempo. É uma época que começamos a planejar, pensar em metas, desejos e projetos para o novo ano que se aproxima. Entretanto, me vejo também em um outro estado: o de agradecer. Agradecer pelos 365 dias que estão a passar e me ensinam e transformam. E, claro, minha reflexão está atravessada por todas as experiências que permeiam a minha trajetória, apenas escolhi uma perspectiva que faça sentido e bem para mim.

Esse ano fui agraciada com acontecimentos grandiosos que torna impossível não sentir o coração cheio de amor e luz. E agradecer e compartilhar é o pouco que posso fazer diante desta imensidão.

Primeiramente agradeço por sentir o ar entrando e saindo do meu corpo, e das condições de crescer e amar mais a vida que me foi dada.

Agradeço por acompanhar, mesmo à distância, a gravidez da minha melhor amiga. A magia e o amor de cada mês do meu primeiro sobrinho vindo ao mundo.

Ao ser presenteada com um encontro inesperado em que conheci a pessoa mais linda que compartilha amor, respeito e confiança.

Por participar de congressos acadêmicos, rever antigos professores, companheiros de profissão e até conhecer o Marvin Carlson, não há como não ser agradecida por isso.

Ver o Teatro Oficina e a grandeza de Zé Celso acompanhada da minha irmã.

Agradeço pelos vinhos, cervejas e cafés compartilhados com meus amigos. A reaproximação de um velho amigo e falar com pessoas distantes que mesmo com o tempo o carinho permanece.

Agradeço ao estar com a minha irmã em nosso aniversário e receber os melhores presentes em forma de carta, livros e abraços.

Agradeço por ter abraçado meus pais e meu irmão. Ter tomado cerveja com meu pai, comer bolo e tomar chá a tarde com a minha mãe e de um dia que estávamos nós quatro sentados à mesa rindo de não sei o quê.

Comer o bolo de fubá da minha avó e escutar as histórias antigas do meu avô. Agradeço por ainda tê-los aqui.

Por qualificar a minha pesquisa de mestrado onde houveram mudanças drásticas que me tirou do eixo. Orientar um laboratório de trabalho do ator sobre si mesmo, e pelos atores que embarcaram, acreditaram e confiaram na loucura dessa experiência. Hoje agradeço o encontro comigo mesma e a pesquisa.

Viajar para a Argentina. Que eu posso dizer que compartilhar os melhores sentimentos nos levam além.

Agradeço por descobrir o abraço que envolve, aquece, suspende o tempo e se torna lar.

Passei por momentos caóticos, turbulentos e ruins. Queria ter feitos coisas que não fiz, queria ter dado o meu melhor quando não dei, queria não ter esquecido de agradecer quando era apenas isso que valia a pena e viver o presente com aceitação e afeto. Mas, tudo bem, foram situações que me mostraram onde eu não quero estar.

Conhecer a meditação e me conectar com a minha espiritualidade e, assim, comigo mesma. Me transformar.

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Sou grata por aprender nesse processo de ser e estar no mundo que tudo passa e, então como vale a pena viver cada hoje, cada presente. Ao me conscientizar que a vida é muito curta para ela não ser apreciada e amada. Que nossa mente é um mundo que quando conectada com o nosso coração é capaz de mover montanhas.

Sou grata por me permitir amar, acreditar e confiar, e deixar que as escolhas sejam transbordadas desses sentimentos que faz crescer. Por perceber que somos únicos e lindos nas nossas singularidades e por sermos assim, só tenho que respeitar e tratar com afeto. Ter fé em mim e nelas.

Sou grata por tomar consciência que eu sou a mudança, que eu escolho como quero ver o mundo e o que me acontece. Que meus olhos podem ser amorosos e posso me alimentar com o que constrói para fazer o bem a mim e ao outro.

Que o tempo passa rápido demais para eu não acreditar, confiar e amar.

Sou grata por cada dia levantar, escutar meu coração e saber que a escolha é minha e, então escolher o melhor para que mova, aqueça, abraça, compartilha e cresça. Que a felicidade é o hoje e só de agradecer ela já bate na porta.

Agradeço por seguir nesse caminho em que todos os nossos movimentos bons cooperam para os movimentos bons do universo. E somos parte dele e ele faz parte de nós e perceber isso traz todo o sentido para agradecer pelos 365 dias vividos.

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Respira, pulsa e vai

“Somos o que fazemos e principalmente o que fazemos para mudar”

Eduardo Galeano

Passei esses meses sabendo que as palavras me buscavam, mas de uma maneira cambaleante não nos encontrávamos. E passei este período entre vulcões e tempestades, e também, marés brandas, céu azul e muitas folhas verdes, e sim, tudo dentro de mim. E queria que as palavras me encontrassem, pois agora, o principal que tenho a fazer é escrever.

E talvez por não estar preparada para encarar o medo do meu ato de escrever além de devaneios sobre que sinto e penso, que o medo imobilizou minha ação de respirar, pulsar e seguir. Demorei muito tempo para buscá-las. E um simples ato que diz sobre você, no momento desaparecido faz você desaparecer também.

E assim fui sendo paralisada diante das obrigações, da necessidade de transformar meu olhar de atriz em escrita, de sentir a distância e a saudade, de sentar na frente do computador por horas e não conseguir escrever uma linha sequer da dissertação. De simplesmente paralisar. Tudo passa ser tortuoso. Desesperador. E a paralisia vem e te enfraquece, te escurece e as ações que deveriam ser simples passam a ficar distantes do presente. Os sentimentos que existem passam a ser ofuscados pela mente que pensa que não deveria estar paralisada. Daí me vi desaparecendo, não sentindo mais a minha luz, não querendo estar neste lugar, mas estando, e a linha que te segura parece querer se romper.

E foi neste momento

Respira

Pulsa

Vai

E depois de sentir-me sufocada com não sei o quê, decididamente fiz uma escolha, eu vou encontrar as palavras. As palavras que vem para tornar palpável meu mundo, meus encontros, as frustrações e medos, a beleza e o amor. As palavras que desenham minha alma e transbordam um pouco disso: que é conhecer-me, transformar-me, amar, viver e apreciar desse instante que é a vida. Que a vida é única e uma hora acaba.

Neste momento digo, que toda hora é hora, que todo dia é dia, escolha. E toda luz tem sua sombra, toda força tem sua fraqueza.

Sinto e vejo, respiro, pulso e vou. Escolho.

Seguro a linha e dou um nó muito mais forte.

A luz aparece, aquece e transforma.

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Mesmo que as vezes parece ser mais fácil se esconder entre as folhagens e na sombra e se deixar levar pelo escuro, bem, este é um caminho que não é meu.

E escolho que me descubro, me transformo e posso ser a luz que mereço ser. Escolho acordar e agir, encontrar as palavras que necessito para dizer, para jorrar, para sentir e me transformar. Escolho sentir o amor, a alegria e a gratidão por esse ato de viver.

Ao final, está tudo bem, porque todo dia é dia, toda hora é hora e são das nossas escolhas que transformam e vão deixando em paz os vulcões e tempestades. E me vejo agradecida hoje, por mesmo passar esse período desajeitadamente dentro de mim, posso hoje escolher, transformar como vejo, acreditar no caminho que escolhi e seguir.

Hoje me vejo agradecida por confiar onde há amor e alegria, por saber onde quero estar e onde me sinto feliz.

Agradecida por escolher deixar transbordar, respirar, pulsar e ir.

Morada

“O gozo do mundo é uma emoção que cada situação renova de acordo com suas próprias cores.” David Le Breton

Nesse processo de crescer, conhecer, aprender e transformar, vou deixando palavras que se perdem, mas na perda eu me encontro um pouco. Nas palavras eu tento refletir sobre o que me atravessa, sobre as emoções que me transbordam, das cores que transmutam. Uma alma carregada de sentimentos que nas palavras se clareiam diminutamente. Assim, vou buscando a serenidade de viver o que há ser vivido no aqui e no agora.

E neste crescimento que me permito vivenciar, uma inquietação persistia em uma noite de sábado conflituosa, talvez causada pelo desequilíbrio dos meus pensamentos, emoções e realidade.

Onde é minha morada?

Me questiono onde me repouso nos momentos de silêncio. Durmo, acordo, penso, sonho, resisto… vivo. Qual o corpo que habito? Este corpo que vai além de osso, carne e pele. Que sobrevive, fala, sente, renasce, que corpo é este?

Nesta noite deitada com o corpo dolorido, o coração palpitando, a mente desassossegada, onde a pergunta palpitou dilaceradamente em meu corpo, como se ao responder fossem colocar todas as questões em seu devido lugar. Não aquietei-me, peguei no sono pelo cansaço e acordava pelo cansaço de não estar descasando. E ao acordar hoje, respiro profundamente e digo calma, está tudo bem não saber qual é a minha morada. Até porque tudo muda, as cores mudam, como ontem o dia estava quente e hoje um dia nublado e de chuva fraca.

Ainda mais, não é simples, nem sempre é prazeroso, muitas vezes a vontade é de entrar numa caixinha, sabe, porque é mais confortável do que encarar os movimentos que estão dentro de mim. Mas este novo corpo sobrevivente não permite se esconder, então olha os movimentos que possuem diversas cores, desde o preto até o laranja mais vivo e cintilante. E senti-los me desestabiliza, confronta, me causa medo de errar novamente, surgem as covardias, as inseguranças, a baixo autoestima, mas também os desejos, sonhos, as pequenas conquistas do dia a dia. É sentir-se pequeno diante de si próprio. Mas agradeço por me reconhecer assim, reconhecer já é muito para transformar.

Continuo construindo novos sentidos neste ato de sobreviver, já que morrer outra vez não me é suficiente. Então tenho tido coragem para me colocar diante do meu próprio reflexo e olhar cada cor fluindo, cada encontro e desencontro, amores e dores, com aceitação e respeito. Persistir, preencher, desafiar, desequilibrar eu mesma. Compreender que morada é esta que habito, esse espaço que move, transforma, faz e se desfaz. Encontrar paz e luz neste mundo de ódio, do medo de amar, de desmatamento e liquidez. Preciso ver algo bom mesmo na maior melancolia.

“São os olhos a lâmpada do corpo.

Se os teus olhos forem bons,

Todo o teu corpo será luminoso.

Se, porém, os teus olhos forem maus,

Todo o teu corpo estará em trevas.

Portanto, caso a luz que há em ti sejam trevas,

Que grandes trevas serão”

(MT. 6.22-23)

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E mudo as cores que enxergo na minha retina, mudo todos os dias e busco amar cada dessas cores que estão em mim e me rodeiam, mesmo que algumas doam. E talvez eu esteja pensando demais sobre a minha sobrevivência, mas prefiro usar a palavra conhecendo, pois ao conhecer-me posso me amar, mudar e transformar, acreditar e fazer. Pois amar este corpo sobrevivente já é um ato de resistência e persistência.

Plena no meu liminar

Mergulhada em reflexões profundas acerca da minha pesquisa de mestrado, em dias inteiros escrevendo e transformando em prática criativa as palavras que me soltam das ideias. Sendo mais uma vez atravessada pelo liminar da vida em busca da minha própria transformação: eu paro neste momento e escuto a chuva, caindo serenamente com o barulho quase imperceptível, em que o céu se acinzentou mais cedo e o dia está realmente com jeito de domingo.

IMG_5934.jpgSinto-me bem, sinto-me em paz neste lugar, neste lugar vivo que é o meu corpo.

Parei de escrever sobre a liminaridade, para agora escrever sobre a suspensão causada pelo silêncio da minha alma ao encontro prazeroso dos pingos de chuva. De certo, continuo a escrever sobre ela, porque na verdade eu estou nela. Como um barco à deriva no mar, sem saber qual terra atracar. Mas, que mal há nisso? Ainda bem que existem liminares para nos transformar e podermos ser aquilo que realmente somos.

E foi um sentir de quietude, de aceitar cada gesto, cada olhar, cada encontro, cada (sem)sentido que me vem chegando. E agradeci a chuva caindo, o silêncio em mim, as palavras em trânsito. Agradeci por ser eu um aglomerado de cicatrizes, que coloco os pedaços, os resquícios, a memória e meu corpo em transformação. E sinto então, que é bom se transformar, bom também se sentir bem só pelo ato de viver o que tem que ser vivido e agradecer os encontros que atravessam a alma.

Me silencio neste domingo então, diferentemente das outras vezes, agora plenamente bem com cada passo que dou neste mundo liminar.

Fala

A fala nos foi dada não para falar, mas para ouvir. E muitas vezes esquecemos que temos ouvido e, que sempre estão abertos para falas que voam por nossas cabeças. Esquecemos que nossa boca fecha e assim poderíamos lembrar que podemos também, apenas, só ouvir.

Fala

Fala

Você me ouve nestas milhares falas em seu pensamento? Você me ouve mesmo quando sua boca está fechada?

E queria não falar, apenas ouvir, ouvir até aquilo que não tem fala. Difícil, talvez por estarmos mergulhados no nosso contexto ocidental de barulhos enlouquecedores.  Que o importante é você falar, falar e falar.

E voltamos ao ponto que tudo que deveríamos fazer é ouvir a fala do outro, o outro que é a sua imagem, fala e pensa, fala e se move, fala e te afeta.

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Fala

Esquecemos dos nossos sentidos. E será que ao falar você se permite ser ouvido? Você permite se ouvir? Não fala, não fala aos ventos livres dispersos sem volta.

Fala para ouvir, para ser atravessados por intimas falas que acompanham nosso universo do existir. Que acompanham esses mistérios que nos fazem humanos de ideias, sentimentos e emoções complexos. Ouve, ouve. A presença é presente no escutar do aqui e do agora. O falar espera sentido ou ser ouvido. Então, ouve.