Primeira rosa

Amor,

paralisou. Posso paralisar? Aquele instante único de silêncio ao te olhar nos olhos e pensar, sinto-me plena. Leve, não precisaria de mais nada. Aquele instante.

O teu olhar, que em silêncio diziam-me coisas, ou talvez até não.

Amor,

posso voltar? Que o coração chora saudade, e saudade não preenche coração, traz vazio, isso sim.

Paralisou, paralisia, covardia, medo, medo, medo.

E o que deu nos caminhos contados em silêncio, nas forças e afetos, na coragem?

Amor,

coragem faltou.

Pena, porque era sim amor.

E só por amores que choram de saudade, saudade

os tempos bons que poderiam vir, dos beijos calorosos que calariam as brigas, das risadas do que não tem graça, dos abraços atravessados na madrugada, dos dedos entrelaçados… infinitas coisas, que sabíamos que nos esperaria. espero, esperar eu só agora.

Amor,

saudade é sentimento pequeno que não deveria ter vindo por medo do amor.

Fala

A fala nos foi dada não para falar, mas para ouvir. E muitas vezes esquecemos que temos ouvido e, que sempre estão abertos para falas que voam por nossas cabeças. Esquecemos que nossa boca fecha e assim poderíamos lembrar que podemos também, apenas, só ouvir.

Fala

Fala

Você me ouve nestas milhares falas em seu pensamento? Você me ouve mesmo quando sua boca está fechada?

E queria não falar, apenas ouvir, ouvir até aquilo que não tem fala. Difícil, talvez por estarmos mergulhados no nosso contexto ocidental de barulhos enlouquecedores.  Que o importante é você falar, falar e falar.

E voltamos ao ponto que tudo que deveríamos fazer é ouvir a fala do outro, o outro que é a sua imagem, fala e pensa, fala e se move, fala e te afeta.

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Fala

Esquecemos dos nossos sentidos. E será que ao falar você se permite ser ouvido? Você permite se ouvir? Não fala, não fala aos ventos livres dispersos sem volta.

Fala para ouvir, para ser atravessados por intimas falas que acompanham nosso universo do existir. Que acompanham esses mistérios que nos fazem humanos de ideias, sentimentos e emoções complexos. Ouve, ouve. A presença é presente no escutar do aqui e do agora. O falar espera sentido ou ser ouvido. Então, ouve.

Sobre recaídas, tropeços e quedas

Acordar numa manhã e a alma está apática. Digamos que uma áurea cinzenta pairou ao amanhecer e permaneceu por alguns dias, precisamente naufragou dores e presságios pessimistas. Aquela sensação vazia que não se sabe de onde vem, surgiu.

Pensar que uns dias antes tudo parecia em seu devido lugar, que os dias eram mais claros, os amores mais atraentes. E daí o sentido se esvai na mesma facilidade dos grãos de areia ao vento. Ressurgiu as ideias frouxas, pequenas e realmente desmioladas.

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A vida perde razão na mesma significância do sentir. Viver é isso, tropeçar, tropeçar, tropeçar… cair.

E a dor que antes era pequena se torna grande o suficiente para sufocar o ar, adormecer o corpo e fazer chorar. Como é engraçado cair nesse passatempo de perder tempo porque você anda sofrendo demais.  Ora, não é escolha amanhecer com uma nuvem cinza em sua cabeça, apesar que muitas vezes parece que sim. E o melhor é recair sobre a cama, sobre o sono, sobre o esquecimento.

Esquece, esquece que ainda tem de viver, aguentar, sobreviver. A vida é pequena para tanto sentimento que transborda, que ultrapassa a razão de esperar. E esquece que toda dor vai e vem, do mesmo modo que toda felicidade vem e vai.

Parece que é impossível suportar, superar. Enfim, parece impossível respirar. E então, alguns dias sobre a cama de olhos fechados evitando pensar que ainda há a vida.

Dias depois você levanta, compreende que é necessário sentir a dor e continuar vivendo.

365 dias

Não parece, mas o tempo corre numa velocidade que muitas vezes não conseguimos acompanhar. Acordamos, vivemos, dormimos e, sobre a menor percepção se passou o tempo. Alguns dias parecem mais curtos e outros mais longos. Mais fáceis e outros mais difíceis. Quanto menos se espera chega o derradeiro um ano.

Voou, não percebi a ligeireza da vida e as coisas tentando voltar aos seus eixos. Pensei, em 365 dias tudo se encaixará. Penso, sinto e não encaixou. Difícil imaginar como o dia 1 existiu fácil e outros 364 dias não foram simples de sobreviver com as mudanças.

Dor, alívio, dor, alívio, dor… dor, dor, dor, alívio, dor. Sufoco. Uma boa maneira de definir estes 365 dias. Perder-se e mesmo depois de não estar daquele lado, ainda estar perdida.

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Conseguimos distinguir como o tempo interfere nossos passos e comemoramos apenas aquilo que acreditamos ser bom, mas importante rememorar aquilo que passou a ser angústia. Também cabe a angústia a nossa existência. Minha existência passa por alegria e dor, meu tempo me faz chorar e rir.

E lembro-me que se passaram 365 dias que acordo numa cama que não é a mesma de antes, sozinha e com a necessidade de me encontrar novamente nesse redemoinho de dias. Me perdi e os dias passaram e não me encontrei. Constatei que como amei, amei e tudo se perdeu em dias maiores e menores e, dos dias que deveriam acalentar esse buraco no peito só serviu para fortalecer que me perdi mais que imaginava. Que 365 dias foram muitos, entretanto, poucos para viver e ser o que eu sou.

Antes de qualquer coisa

“Abençoados os que esquecem, porque aproveitam até mesmo seus equívocos” Nietzsche

O que é o esquecer?

Não ter lembranças alguma, sentimentos nenhum ou fugir de ambos? Seguir em frente, fechar a porta atrás de si ou virar a página?

Esquecer parece o caminho mais simples para deixar de existir aquilo que passou a doer, a machucar e fazer “o belo e o sublime” sumirem. Parece simples o fato do tempo e os dias passarem para esquecer do que foi feito e dito. A teoria parece complacente à todos os termos dados para quando se precisa esquecer.

O seu amigo te diz com facilidade para encarar os fatos e seguir em frente, sua mãe te aconselha novos amores, seu terapeuta diz que é preciso paciência.

Mas aquilo que é, não há esquecimento que apague. Retoma a forma, a cor, o peso, enfim, a densidade de tudo. Retorna para o começo, pois é preciso viver e sentir mesmo. Desvencilhar o caos do cotidiano e da intimidade e perceber o doce amargo de querer estar junto. Construir as lembranças. E mesmo que depois o caminho reserve a divisão de águas é preciso aproveitá-las.

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Clementine: Logo tudo isso vai desaparecer

Joel: Eu sei

Clementine: E o que vamos fazer?

Joel: Aproveitar enquanto temos tempo

(Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças)

 Por isso, me deixe então aqui parada no tempo para não desaparecer nada e tudo se manter intacto como fora outrora. Deixe como estão as gavetas, os livros, os cds e canecas sujas na pia para eu não esquecer nada. Me deixe guardar a foto da viagem, o cartão de aniversário e uma rosa seca de um buquê do dia dos namorados.

Porque logo tudo vai desaparecer e nada mais a fazer do que aproveitar, porque daqui algum tempo serão lembranças doces ou amargas. E logo você olhará ao redor, mudará seu coração e novas lembranças serão construídas.

Peço, só deixe o tempo passar e, espera um pouco.

Esquecer que fizeste parte da minha vida

Aquela vontade do tempo passar voando, das horas serem ligeiras e o dia num piscar de olhos. Mas parece demorada, dolorosamente demorada. Quero que passe rápido para eu não lembrar nem da cor dos seus olhos ou do timbre da sua voz.

Sim, quero esquecer que você fez parte da minha vida. Esquecer o quão cruel foi acreditar nas tuas falsas palavras e nos teus míseros afetos. Esquecer até dos sutis momentos bons, até porque eles foram falsos também. Aliás deveras dizer que desejo que o tempo seja rápido para eu não ter mais sentimento algum.

E hoje, definitivamente hoje, me sinto superior a todo essa mesquinharia sentimental. Já não merece qualquer pensamento meu, nem sequer uma saudade dos tempos vividos. E hoje, descubro como você é insolente e infantil a ponto de acreditar que a vida será sempre fácil aos seus olhos. Minha querida criança, lamento informar que não será sempre assim.

Entretanto, não me importo mais, pois apenas desejo que o tempo passe rápido o bastante para eu não lembrar da sua existência e nem da lamúria das suas necessidades egoístas. E desejo que não caia nas suas próprias armadilhas, porque dessa dor não espero que ninguém sintas. Mas tome cuidado a não enganar mais quem te quer bem, a não mentir, porque talvez isso possa te fazer sozinho um dia.

Enfim, hoje, só peço que os dias passem rápido o suficiente para eu não lembrar que fizeste parte da minha vida.